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In Semanário
Económico, Fevereiro 2001
Escassez de Informação - o Plano B
Já não é novidade para ninguém que a complexidade e exigência crescentes
das necessidades do mercado, requerem uma adaptação permanente do marketing-mix
por parte das empresas, para ir de encontro a um target cada vez mais
segmentado, no sentido de diferenciar, em última análise, cada um dos nossos
clientes ou potenciais clientes individualmente.
A evolução do conceito do marketing one-to-one despertou a
necessidade nos decisores de terem informação relevante sobre o mercado em que
operam, de uma forma precisa, consistente e, preferencialmente, em tempo real.
Em Portugal, comparativamente a economias mais desenvolvidas a nível
mundial, a informação para marketing disponível é escassa, tanto num
contexto business-to-business, como em business-to-consumer.
As razões normalmente apontadas para esta situação são várias.
Quanto à informação sobre consumidores, o dedo é apontado muitas vezes
ao enquadramento legal sobre a privacidade dos dados, que impõe limitações
(legítimas) ao tratamento da informação recolhida junto do mercado.
Adicionalmente, a informação oficial sócio-económica disponível sobre a
totalidade da população portuguesa poderá não constituir uma alternativa, já
que tem hoje cerca de dez anos (Censos 1991 – Instituto Nacional de
Estatística), o que poderá induzir conclusões erróneas, que levarão a decisões
pouco acertadas.
A situação é um pouco diferente no que toca à informação sobre negócios.
Por um lado, podemos evocar razões de
cultura empresarial. Apesar de necessitarem de informações sobre as empresas com quem lidam, muitos decisores
têm ainda relutância em ceder informação sobre a sua própria empresa a
terceiros, baseando-se em receios, na maior parte das vezes, infundados. O
enquadramento legal também não ajuda. A título de exemplo, a entrega dos
balanços nas Conservatórias é obrigatória por lei, mas a multa aplicada por
incumprimento, devido ao seu valor, não constitui um incentivo à divulgação de
informação.
Mas as razões acima apontadas são, em minha opinião, secundárias. Julgo
que a razão primordial para não haver, no nosso país, informação específica e
disponível para todos os agentes do mercado (tanto sobre empresas como
indivíduos) é essencialmente económica. Passo a explicar.
A informação é, por excelência, um “bem” de economias de escala. Tem um
elevado custo de produção, mas tem um custo marginal de reprodução virtualmente
nulo. Esta realidade, aliada à dimensão reduzida do nosso país, torna os
investimentos em recolha de informação de difícil rentabilização. Aos custos de
produção, teremos de acrescentar os custos de actualização, cada vez mais
significativos num ambinete económico em permanente alteração. Acresce ainda
que, em mercados de concorrência, o preço de venda tende a ser empurrado, no
limite, até ao seu custo marginal, que no caso da informação é praticamente
zero.
Neste contexto, não sobram muitos incentivos para haver entidades
privadas especializadas em recolha e venda de informação sobre os mercados em
Portugal.
Sendo assim, que alternativas têm os marketeers de hoje, para
identificar, segmentar e estabelecer prioridades de abordagem ao seu mercado
potencial?
Para responder a esta questão, irei daqui em diante focalizar esta
temática num contexto business-to-business. Em primeiro lugar, porque é
um ambiente onde as decisões de compra são essencialmente racionais, por
oposição a motivações de compra emocionais dos consumidores. Em segundo lugar,
porque existem mais alternativas e o retorno de investimento é mais imediato e
facilmente mensurável.
Por vezes a solução mais óbvia é aquela que, por estar tão perto, nem a
conseguimos ver. Na maioria dos casos, os dados de clientes mantidos pelo departamento
financeiro (para efeitos de facturação e controlo de crédito), encerram em si
um potencial imenso, muitas vezes ignorado pelo marketing das empresas.
Efectivamente, essa informação contém a identificação de cada uma das
empresas e faz-lhes corresponder uma medida de importância, que é o retorno
gerado por cada um dos clientes num determinado período de tempo.
Através do recurso a fontes de informação externas, ou recolhendo
informação junto dos próprios clientes, é possível segmentarmos a nossa
carteira de clientes de acordo com um conjunto de características directamente
relacionadas com a apetência à compra (como o sector de actividade, dimensão e
localização, entre outros), por forma a formarmos grupos homogéneos de
clientes, ou clusters.
É igualmente importante nesta fase, ter uma noção da taxa de penetração
em cada um desses clusters, por forma a quantificar o sucesso que o
nosso produto ou serviço tem tido, junto desse conjunto de clientes com
características muito semelhantes.
Assim, se quisessemos construir um score de atractividade para
cada um desses clusters, este seria valorizado por duas medidas.
Em primeiro lugar, a medida do sucesso, ou taxa de penetração. Como
exemplo, se num determinado cluster existem a nível nacional 100 empresas
e 80 são já clientes, então faz sentido supor que o esforço de conquista das
restantes empresas empresas, vem facilitado pelo sucesso que o mesmo
produto/serviço teve em empresas semelhantes.
Em segundo lugar, o score deverá ponderar uma medida de importância,
que poderá ser o potencial de facturação. Tomando o exemplo anterior, se
sabemos quanto valem em média as 80 empresas que são clientes, é razoável
extrapolar esses valores para as 20 empresas “gémeas”.
O resultado deste score identifica e prioritiza o mercado em
termos de negócio potencial.
As vantagens desta abordagem são óbvias. Em primeiro lugar, a medida da
importância de cada potencial cliente (facturação potencial), é baseada em
dados reais, que a empresa foi recolhendo ao longo de anos, no decurso da sua
actividade. Em segundo lugar, permite prioritizar a abordagem de prospecção
comercial, numa perpectiva de marketing one-to-one, onde o custo por contacto
deverá ser directamente proporcional ao potencial de negócio de cada uma das entidades.
Claro que, por esta altura, o leitor já deve ter colocado as seguintes
questões: “E quando a empresa é uma start-up e não tem histórico de
clientes?” ou “E quando uma empresa
pretende diversificar a actividade para segmentos onde nunca esteve presente?”
Aqui a questão não tem uma solução tão simples como a anterior. Se no
mercado não houver informação disponível que permita medir a apetência pelo
consumo de determinado produto ou serviço, a resposta poderá estar no recurso à
construção de Modelos de Estimação de Procura.
Neste caso, o primeiro passo será definir o universo potencial,
relativamente vasto (no limite a totalidade do mercado), onde julgamos estarem
inseridos todos os clientes potenciais.
Numa situação óptima, a informação sobre potencial de consumo seria
inquirida a cada um dos agentes do mercado. No entanto, esta opção pode não ser
financeiramente viável e exigiria dispêndio de tempo e recursos valiosos para o
core business da empresa.
A alternativa pode passar por aplicar técnicas de amostragem, que nos
permitam constituir um conjunto de empresas representativo do total do mercado,
sobre as quais já é viável levar a cabo uma operação de recolha de informação.
Com a informação recolhida, podemos então passar a testar a relevância
que cada uma das características das empresas inquiridas tem para um dado valor
de consumo potencial. As características consideradas relevantes, servirão de
base à construção de modelos de estimação que permitam extrapolar a realidade
da amostra para o universo total.
Uma outra questão de extrema importância tem a ver com a
operacionalização dos resultados deste tipo de estudos. Devemos ter a noção,
desde início, dos recursos e
capacidades que dispomos para processar e utilizar no dia-a-dia a informação
gerada que, de repente, está disponível para a organização.
Herbert Simon (Prémio Nobel Economia 1978) disse uma vez que “a
abundância de informação cria pobreza de atenção” e esta afirmação tem-se
tornado uma verdade dolorosa para todos nós que lidamos diariamente com a World
Wide Web como fonte de informação.
Com a informação, ao contrário
do anúncio, não importa tanto o tamanho mas sim o que se pode fazer com ela.
Rui Pereira
pereiraru@dnb.com
Business Development
Dun & Bradstreet Portugal