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In Semanário Económico, Fevereiro 2002

O fim anunciado do Dr. No

 

Aqui há tempos, ouvi profissionais das áreas de vendas e marketing referirem-se aos seus colegas responsáveis pela aprovação de crédito pelo cognome de Dr. No, famoso personagem arquinimigo do não menos famoso agente secreto James Bond.

 

Já todos tinham visto o mesmo filme tantas vezes: após a longa travessia do ciclo de negócio, desde um brilhante plano de marketing, a um minucioso account planning, passando por incansáveis batalhas de negociação, até ao limiar da concretização da venda, eis que inesperadamente surgia o Dr. No munido de incontáveis preocupações sobre o risco de crédito, gorando de forma impiedosa o almejado negócio.

 

Tradicionalmente, aos olhos dos profissionais de marketing e vendas, os gestores de crédito existiam adormecidos nos confins insondáveis do departamento financeiro, de onde emergiam ocasionalmente, para ditar objecções desanimadoras, cujos critérios pareciam mais ou menos aleatórios.

 

Mas esta visão pertence ao passado. A um passado quase tão antigo quanto o do filme do agente secreto britânico. Hoje, a responsabilidade do gestor de crédito nas organizações ultrapassa em muito a mera análise de casos individuais, de cariz eminentemente financeiro.

 

Os profissionais de crédito de hoje

É um facto que hoje em dia nenhuma empresa ainda se pode “dar ao luxo” de recusar clientes. A resposta de um profissional de crédito já não pode nem deve se limitar a um “Sim” ou “Não”. A resposta terá de ser antes “em que condições” e mediante uma quantificação, o mais exacta possível, do risco em que se incorre ao aceitar fazer negócio com um cliente específico.

É com esse objectivo que existem ferramentas, como os modelos de scoring preditivos, que estão a mudar a forma como toda a organização encara os profissionais de crédito.

 

Através dos modelos de credit scoring, os profissionais de crédito podem definir, monitorizar e calibrar regras de decisão que podem ser aplicadas de forma consistente em toda a estrutura da organização. Com regras consistentes, o processo de decisão poderá ser descentralizado e o tempo precioso dos profissionais de crédito ficará reservado para um grupo marginal de processos, onde o seu know how será melhor rentabilizado, enquanto que os modelos de scoring encarregar-se-ão das aprovações de transações de baixo risco, definindo condições e limites de crédito diferenciados e previamente estabelecidos.

O credit scoring

Os modelos de credit scoring têm por base uma medida (score) absoluta (pontuação) ou relativa (percentil), que indica a probabilidade de, num determinado período de tempo (geralmente um ano), uma entidade ou um indivíduo incorrer num comportamento não desejado (como atraso, incumprimento ou falência). Existem vários tipos de score, mas de uma forma simplista, estes dividem-se essencialmente em três categorias:

 

  1. Os modelos de scoring Genéricos, são hoje geralmente desenvolvidos e comercializados por terceiras entidades, são aplicados a populações relativamente heterogéneas (p.ex. um país), com base na observação comportamento de uma amostra representativa da população. Destinados a entidades que operem no mercado de uma forma transversal, têm a vantagem de serem passíveis de aplicação fácil, imediata e a baixo custo, podendo no entanto revelar-se de detalhe insuficiente para empresas que actuem em franjas específicas do mercado, ou que se enquadrem em conjunturas únicas.

 

  1. Os modelos de scoring Sectoriais são na maioria dos casos igualmente desenvolvidos por terceiras entidades, com base em informação sobre experiências observadas numa amostra de indivíduos ou entidades que se conhece manterem negócios com determinado tipo de entidade ou sector de actividade (como por exemplo leasing, construção ou transportes), que possua especificidades únicas, como baixas margens de lucro, ambiente muito competitivo ou elevado número de transações de baixo montante, entre outras. Naturalmente, a aferição do risco incorrido é neste caso mais exacta do que através de um score genérico.

 

 

  1. Os modelos de credit scoring mais poderosos são no entanto aqueles desenvolvidos a partir da própria base de clientes de uma empresa. Normalmente apelidados de modelos de scoring Customizados, reflectem fielmente a forma como uma entidade lida actualmente com os seus clientes, garantindo uma melhor performance em termos de preditividade. A sua implementação é, no entanto, mais morosa e dispendiosa do que nos casos anteriores. Adicionalmente, a empresa terá de dispor de uma base de clientes de dimensão considerável, para que a informação tenha relevância estatística.

 

Impacto do credit scoring no Bottom-line

Os executivos de topo já não investem em processos que possam gerar ganhos, mas que não tenham um impacto directo no bottom line, e as empresas de hoje já se aperceberam do poder do credit scoring em obter claros ganhos de eficiência por toda a organização, com impacto directo nos resultados.

 

Com o uso deste tipo de ferramentas mais a montante do ciclo de negócio, os responsáveis de crédito podem ajudar os profissionais de marketing e de vendas a aumentarem a rentabilidade de uma carteira de clientes, sem que isso implique uma diminuição do número de negócios efectuados. O score constitui uma medida que lhes permite prioritizar esforços e recursos, direccionando-os para clientes potencialmente mais rentáveis. Garantida a consistência da avaliação de risco, as decisões poderão então ser descentralizadas para o front end da empresa. Adicionalmente, decisões de crédito mais rápidas podem em última análise significar maior disponibilidade das equipas de vendas para trazer mais novos negócios.

 

Exemplo corrente desta prática é a integração de modelos de credit scoring nos call centers das empresas, onde é efectuado um pre-screening de potenciais clientes, favorecendo as oportunidades de risco mais controlado.

 

Existe hoje uma apetência igualmente crescente para a aplicação de modelos de credit scoring, mais a jusante do processo. É de fácil compreensão que quanto mais eficiente for o processo de filtragem no ínicio do ciclo de negócio, mais facilitada vem a função de cobranças e menos dívidas em mora serão entregues a terceiras entidades para cobrança.

 

Por outro lado, os gestores de cobranças vêm usando cada vez com mais frequência o score de crédito nas contas em atraso para prioritizar os esforços do seu próprio departamento, garantindo mais retorno com os mesmos recursos. Um cliente incumpridor com um bom score, pode sugerir uma dificuldade momentânea de pagamento, com causas circunstanciais, e poderá ser resolvida com um simples telefonema. Já a mesma situação num cliente com um mau score de crédito indica dificuldades crónicas, com causas mais estruturais, restando ao credor assumir medidas mais rígidas, e normalmente também mais dispendiosas, para reaver a dívida.

 

Assim, os responsáveis de crédito assumem uma preponderância nas organizações de hoje que em muito ultrapassa a função financeira com que tradicionalmente eram encarados. Através de ferramentas de suporte à decisão como o credit scoring, hoje são vistos como conselheiros valiosos na identificação de oportunidades mais rentáveis, mais eficientes e com maior impacto no que realmente interessa: os resultados.

 

Por força das evidências da realidade, o Dr. No ficará assim definitivamente relegado para o nosso imaginário, apenas como mais um vilão de uma história de espiões.

 

Rui Pereira

pereiraru@dnb.com

Risk Management Solutions Specialist

D&B