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In Semanário
Económico, Outubro 2001
Num período em que a conjuntura que envolve as organizações é
particularmente incerta, observa-se a atitude das empresas em “esperar para
ver”, adiando investimentos em opções de longo prazo, sem aliviar no entanto a
pressão para obtenção de resultados.
É nestas circunstâncias que as organizações, preterem estratégias de
crescimento da carteira de clientes, virando as atenções para a cadeia de
fornecimentos, ou Supply Chain Management (SCM), no sentido de obter
poupanças com impacto directo e imediato no bottom-line, i.e.
resultados.
Numa situação
óptima, essa estratégia terá forçosamente que passar por uma revisão integral
dos procedimentos internos e implementação de ferramentas de controlo de gestão
e de suporte à decisão (do tipo ERP). A implementação destas metodologias são
naturalmente morosas, quer pela
resistência interna à mudança que encontram, quer pelos montantes a investir
envolvidos.
Assim, torna-se imperativo a adopção de estratégias de contingência, de
curto prazo, que visem a obtenção imediata de poupanças.
Qualquer
estratégia deverá ter por base um conjunto de decisões baseadas em
conhecimentos extraídos a partir da informação disponível. De igual modo, as estratégias deverão ser
naturalmente diferentes consoante a natureza do fornecimento bem como o tipo de
fornecedor, de onde advém a necessidade de dispor de informação dentro da
organização que permita responder a questões aparentemente básicas como “A quem
estou a comprar...”, “Quanto estou a comprar...” ou ainda “O que estou a
comprar...”
Estas questões
poderão ser de fácil resposta numa organização que actualmente disponha de
ferramentas de gestão integrada de fornecimentos e stocks ou de sistemas ERP.
No entanto, para a esmagadora maioria das organizações, essa informação
encontra-se dispersa por vários departamentos ou armazenada sob a forma de
informação transaccional no departamento financeiro. Acresce ainda que essa
informação interna normalmente carece de tratamento e qualificação, através de
integração com fontes externas de informação, para garantir a consistência e
profundidade necessárias para uma análise que seja relevante para o processo de
tomada de decisões.
A chave do sucesso está em dispor de informação relevante, fiável,
actualizada e consistente, que esteja disponível para quem pretendemos e sempre
que necessitamos. Muitas vezes negligenciado, este processo de Racionalização
da Informação é condição sine qua non para a adopção de qualquer
estratégia de Supply Chain Management.
Uma vez assegurada
esta racionalização da informação disponível, é possível criar conhecimento
segmentando a carteira de fornecedores, tendo por base dois vectores: o Risco
de Obtenção e o Risco de Mercado. Enquanto que o primeiro mede na óptica da
oferta a disponibilidade em número de fornecedores capazes de corresponder a
necessidades específicas, o Risco de Mercado mede na óptica da procura a necessidade
em valor que a organização manifesta para os diferentes fornecimentos.
Analisando a carteira de fornecedores na óptica este binómio, é possível
identificar as seguintes categorias de fornecimentos:
Os fornecimentos Estratégicos, como tecnologias críticas que poderão ser
detidas por um único fornecedor, deverão ser encarados numa óptica de
parcerias. Exemplo da aplicação deste tipo de parcerias é a evolução inovadora
do conceito Just-in-Time (JIT) levada a cabo pela Bose durante os anos 90.
Denominado JIT II, este conceito pressupõe a presença física de representantes
dos fornecedores na estrutura de procurement da empresa, colaborando em
simultâneo com a área de concepção de produto do fornecedor. Para além de evidentes ganhos de eficiência
com a introdução de especialistas no processo de encomenda, a redução da
complexidade do processo leva a necessitar de menos tempo e menos pessoas
envolvidas para cada ordem processada. Em consequência, o tempo dos ciclos
produtivos e custos administrativos vêm reduzidos, com ganhos de eficiência.
Os fornecimentos de Volume, em que são exemplo matérias-primas ou
subsidiárias de produção generalizada, devem seguir sempre uma óptica de
economias de escala. A estratégia poderá passar por redução do número de fornecedores
para cada categoria de produto, tendo em vista o aumento de poder negocial,
aproveitando descontos de volume. Identificados os fornecedores envolvidos,
deve-se proceder a um trabalho de qualificação adicional da informação
disponível (como o grau de dependência do fornecedor em relação a nós), no
sentido de escolher os fornecedores que ofereçam as melhores garantias de
serviço e que simultaneamente sejam mais sensíveis a descontos de volume.
Os fornecimentos Não-críticos, também designados MRO (Maintenance,
Repairs and Operations), representam a esmagadora maioria do número de ordens
de compra emitidas, com um valor unitário relativamente baixo, como são exemplo
os materiais de escritório ou os serviços de manutenção. A estratégia adoptada
deverá passar necessariamente pela coordenação interna para a consolidação da
despesa e redução do número de ordens de compra emitidas. É aqui que as novas
tecnologias poderão desempenhar uma papel fundamental, nomedamente através das
plataformas de comércio eletrónico de fornecedores ou inclusivamente os
e-Marketplaces, que se assumem hoje como o meio mais eficiente para
transaccionar produtos ou serviços com baixo grau de diferenciação. Estas indicações são confirmadas por um
estudo publicado pela Forrester Research em Julho de 2001, revelando que o
grande crescimento de transacções on-line durante o primeiro semestre deste
ando advêm precisamente dos chamados materiais indirectos, ao contrário do que
se verifica com os fornecimentos directamente relacionados com o processo
produtivo das organizações, em que o grau de interacção cliente-fornecedor
ainda se revela insuficiente.
Existem ainda fornecimentos designados como Bottleneck (no
sentido de “estrangulamento”), associados a produtos em fim de ciclo ou
materiais obsoletos que, quer pela dificuldade na sua obtenção, quer pelo baixo
valor envolvido, aconselham uma atenção no custo da operação em simultâneo com
uma gestão de minimização do risco de uma eventual descontinuação de produção
por parte dos fornecedores.
Estas “estratégias de contingência” são soluções one-shot,
adaptadas a objectivos de curto prazo, não requerendo investimentos
significativos em estruturas ou tempo. Devemos ter sempre em mente que Supply
Chain Management é uma estratégia baseada no aproveitamento da função de
compras como uma ferramenta para atingir competitividade sustentável a longo
prazo.
Embora de fácil explicação teórica, a implementação de estratégias de Supply
Chain Management implica na maioria dos casos mudanças significativas na
forma como as organizações encaram a sua função de aprovisionamento, como
adoptam tecnologias e comunicações, como maximizam as oportunidades para
standardização e outsourcing e, acima de tudo, da mentalidade dos decisores. A
boa execução depende do equilíbrio de todos estes factores, até porque uma
cadeia é tão forte quanto o seu elo mais fraco.
Rui Pereira
pereiraru@dnb.com
Business Development
Dun & Bradstreet Portugal